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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Racismo “à brasileira”

Racismo “à brasileira”[1]

ADRIANA ORSA
ANDRÉA ARAUJO GOMES BRASIL
JÉSSICA DE ASSUNÇÃO
NILTON SACRAMENTO
NOEMI SILVA PACHU GOMES
ODILÉA CORRÊA DA SILVA


1.  INTRODUÇÃO: UMA SOCIEDADE AMBIVALENTE

Em toda a história da humanidade as sociedades sempre demonstraram algum tipo de reação com o diferente, sendo assim entendemos o quanto o racismo é antigo.  Porém, no Brasil há uma forma peculiar de racismo, até mesmo pela história dos negros em território brasileiro. 
Não possuímos leis que tornem oficial a segregação racial, porém ela ocorre de forma dissimulada e pode-se dizer que até cordial.
Vemos o racismo fortemente presente ao observarmos quem ocupa os melhores cargos nas empresas, índices de nascimento e morte e até mesmo na divisão geográfica. Apesar de vivermos numa sociedade que exalta uma sociabilidade racial ímpar, o que  acontece é exatamente o contrário.


1.1. LINGUAGEM E SILENCIAMENTO: UM PRECONCEITO RETROATIVO

“Você tem preconceito de cor? Conhece alguém que tenha preconceito de cor? Se sua resposta for sim, descreva seu grau de relacionamento com esta pessoa”.
As perguntas acima utilizadas em uma pesquisa revelaram como as pessoas lidam com a questão racial. Na primeira pergunta a maioria respondeu que não, porém na segunda 99% dos pesquisados disseram conhecer e também informaram que os preconceituosos são pessoas próximas. 
Apesar de alguns verem as pesquisas como uma atitude racista, elas revelam a realidade que por muitas vezes é ocultada.  Vemos que a cada dia no Brasil afirma-se um racismo dissimulado e sempre atribuído ao outro, afastado da esfera pessoal. Ainda que não oficial, o racismo é fortemente presente em nossa sociedade.
Segundo o professor Nogueira (1979, p. 79), considera-se como preconceito racial “uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece”.
Nogueira (1979) esclarece que as formas de manifestação de preconceito e de discriminação existentes no Brasil e nos Estados Unidos, em relação aos indivíduos considerados negros são modalidades diferenciadas. São elas: (a) o preconceito de marca (Brasil) é quando o preconceito racial se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos e os sotaques; e (b) o preconceito de origem (EUA) é de caráter biológico, basta uma gota de sangue para definir sua condição racial.


2.  PELA HISTÓRIA

A história transmite o temor e a estranheza com que eram vistos os povos aqui residentes. Mas, alguns observadores franceses, perceberam que existiam regras entre os índios brasileiros.  Viajantes, aventureiros e outros que nunca pisaram em nosso solo, narravam ou “adivinhavam” nosso território e peculiaridades, dando um tom  fantasioso, algumas vezes monstruoso sobre as jovens terras distantes.
 Com a chegada da Corte ao Brasil abriram-se os portos às “nações amigas”, mas a França ficou de fora, então os geógrafos franceses esperaram até 1815 para conhecer e observar, descrevendo suas viagens e experiências pessoais, como fizeram os primeiros exploradores em cartas à Coroa. Mas, nem tudo é maravilhoso, existia ambivalência, de um lado a exuberante natureza, do outro a atrocidade da escravidão.
Durante o século XIX no Brasil foi criado um projeto cultural que tinha por objetivo a divulgação da produção literária nacional, com a abordagem de aspectos que envolviam a nacionalidade e a identidade local. 
Nesse período foram fundadas o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e a Academia Imperial de Belas Artes, que contavam com o apoio da monarquia. 
A preocupação dos escritores integrantes da IHGB era apresentar nas publicações uma identidade brasileira, dando importância à produção de uma cultura genuinamente nacional, além de procurar se afastar da imagem deixada pelo período da escravidão. As publicações enfatizavam a descrição da natureza, os costumes e os habitantes do país, com destaque para o índio.
Participavam do IHGB a elite carioca literária e escritores como Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre, Joaquim Manuel de Macedo, Gonçalves Dias e Francisco Adolfo de Varnhagen.  As ideias desses escritores eram divulgadas  na  revista do Instituto.
Em 1857, Gonçalves de Magalhães publica “A confederação dos Tamoios” que trata especificamente do tema indígena e apresentava os heróis indígenas, além de retornar  ao período da colonização. Gonçalves Dias, considerado um grande escritor romântico brasileiro, também utilizou na poesia o indianismo, apresentando o índio como exemplo de pureza e modelo.  
José de Alencar publica em 1865 a obra literária “Iracema”, que apresenta os brancos e os indígenas convivendo em um ambiente idealizado, aborda a mestiçagem e o surgimento de uma nova raça.
O romantismo foi um movimento ligado ao nacionalismo. Os indigenistas se tornaram populares ao apresentar o índio como símbolo nacional, ocultando assim a existência dos negros e da escravidão. 
Os quadros apresentavam figuras que retratavam os cenários e destacava a virtude moral dos heróis. Nas telas de Pedro Américo, Meirelles e Amoedo, a paisagem se destacava e os selvagens eram apresentados como vítimas da nacionalidade. 
Nesse período passou-se a dar importância aos relatos dos viajantes e apagar da memória a existência da população negra.


2.1. O SÉCULO XIX E A DETRATAÇÃO: DARWINISMO SOCIAL E A CONDENAÇÃO DA MESTIÇAGEM
  
O positivismo, o evolucionismo e outras teorias chegaram ao Brasil aproximadamente no fim do século XIX, em meio às críticas a monarquia e um cenário de fortalecimento abolicionista. Nesse momento formava-se uma “santa trilogia”: o progresso, a civilização e a evolução, que sobressaíram principalmente na Corte, em São Paulo e em Recife. Com os grandes nomes como Comte, Darwin e Spencer. 
O momento expressava indício de “degeneração” promovida pela mestiçagem muito ocorrente na população. Imperava a teoria de “darwinismo racial”, que condenava a mistura de diferentes grupos e de diferentes etnias, onde se considerava que cada raça  possuía capacidades e comportamentos “únicos”. 
Louis Agassiz via a mestiçagem no Brasil como deterioração.  Já Arthur de Gobineau que parecia não gostar do Brasil, no tempo em que permaneceu aqui por uma missão oficial, alegou ser uma população mulata, viciada em sangue e feia a ponto de assustar. Juntamente com esse olhar, o Brasil era visto também internamente como um país “sujo”, onde só haveria saída e solução se houvesse o branqueamento de sua raça, assim na “mistura” de uma pessoa branca com uma pessoa negra nasceria um filho branco e salvaria a família, como se fosse um milagre.
O país passou a ser visto como exemplo de degeneração tanto dentro como fora de seu território a partir da visão darwinista. 
A miscigenação transformou-se em polêmica, o “problema racial”.  A elite local e branca acreditava ser o negro limitado em intelecto. Por isso, se submetia à desigualdade e a escravidão. Justificando e naturalizando as diferenças sociais. Mas, isso inferiorizava toda a população, a miscigenação já era grande e se fosse mantida essa teoria o país não teria futuro, pois seríamos degenerados por tantas misturas. 
Os cientistas não podiam mais utilizar só o determinismo como modelo, era preciso criar outras formas de estudar o caso ímpar na história do mundo.
No início do século XIX, houve um desânimo no Brasil. Os biólogos não acreditavam mais na igualdade prometida pela política e buscavam uma explicação para as diferenças entre os homens. Apoiados em Darwin, afirmaram que essa mistura salvaria a nação.
De Recife e São Paulo estavam vinculadas a elaborar com equidade um código para unificar a nação. As teorias das duas divergiam, em Recife o determinismo racial alemão, já em São Paulo, liberal, trabalhando com cautela os estudos do darwinismo social. Pensavam igualmente a prática do Direito com hegemonia, sem hierarquia. Para eles, democracia não significava cidadania e igualdade, pois raças diferentes pressupunham capacidades e atributos morais diversos.
Nas faculdades de Medicina confundiam-se os papéis de médico e cientista social, que deram lugar ao higienista e ao perito criminal, com intervenções na política e no social. Na Escola de Medicina Tropical Baiana, o darwinismo social é adotado de forma radical com sua condenação ao cruzamento, condicionando política e medicina, dando ênfase a  medicina criminal, onde a miscigenação era o tema, nosso maior mal e suprema diferença. 
Nesta escola o doente era a questão. Nina Rodrigues, o líder deste grupo, defendia a existência de dois códigos penais, cada um adaptado ao "grau de civilização" do grupo que representava, o crime seria "relativo" e endêmico.
Na faculdade do Rio de Janeiro, as pesquisas preocupavam-se com a higiene pública, descobriram doenças tropicais, que deveriam ser imediatamente sanadas. Partiram para uma ampla política de intervenção pública e abrangente. A saúde da coletividade era prioridade. Esses médicos combinavam higiene e darwinismo social. Enfrentaram problemas como a "Revolta da Vacina", mas o importante para eles era combater as doenças tropicais, salvando igualmente a todos, independente da etnia.
Os modelos das teorias presentes no Brasil nessa época eram copiados, traduzidos e selecionados para novas  aplicações onde se transformava diferença social em barreiras biológicas. Porém, essa visão determinista levava a um debate incipiente sobre a cidadania. Com isso, o princípio universal de igualdade e o humanismo foram excluídos, reforçou-se então o racismo e o liberalismo, onde se formava a nacionalidade sobre uma questão de natureza. Assim, fortaleceu-se a desigualdade e esqueceu-se ou não se fez saber o que vinha a ser cidadania. 


2.2. ANOS 1930. DO VÍCIO AO ANTÍDOTO: CULTURALISMO NO BRASIL

Nos anos 1930, a cultura mestiça desponta como representação oficial da nação e o negro passa a ter presença  na literatura brasileira como na obra  “Macunaíma” de Mário de Andrade. No decorrer do livro, o escritor apresenta as três raças formadoras da nação: índio, negro e branco. O escritor defende os elementos de uma cultura nacional e os personagens do livro são constituídos de indígenas, caipiras, negros, mulatos e brancos.
Com a publicação da obra “Casa-grande & senzala”, Gilberto Freyre introduz os estudos culturalistas como modelo de análise. Ele mostra uma visão otimista da mestiçagem, dizendo que todo brasileiro possui, ainda que não exteriormente, um pouco do indígena e/ou do negro. 
Outros autores se destacam nessa época afirmando um Brasil com uma identidade própria, um Brasil mestiço. Alguns elementos culturais originalmente africanos tornam-se nacionais, representando simbolicamente a mestiçagem. Criam-se também, datas cívicas como o dia da Raça, afim de, exaltar a tolerância de nossa  sociedade. Nesse movimento, buscava-se encorajar uma convivência cultural miscigenada. Porém, essa visão ocultava a real desigualdade e a violência existente no dia a dia dos brasileiros.


3.  O COTIDIANO DA DISCRIMINAÇÃO

A desigualdade na distribuição geográfica representa uma das grandes características na análise da conformação brasileira. Praticamente metade da produção classificada como parda se encontra na região Nordeste, onde há maior concentração de pobreza. Ao contrário, as áreas do Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) e do Sul têm a maioria da população branca. Essa divisão desigual é por sua vez um dos fatores que explica a dificuldade de crescimento econômico e social dos não brancos, barrada pela concentração dessa população nos locais geográficos menos dinâmicos. Dados sobre o mercado de trabalho demonstram grandes evidências de desigualdade social.
Com relação à questão cor, com exceção do setor agrícola, destaca-se o predomínio branco e às vezes amarelo na distribuição da população no interior das atividades. As populações preta e parda aparecem de forma desigual na distribuição de empregos. Tal situação reflete-se diretamente no perfil e na renda dos grupos. 
Com relação ao acesso à educação também podemos perceber a desigualdade no Brasil. Atestou-se que a maior parte dos estudantes das instituições públicas é formada por negros.  Quanto à taxa de alfabetização, podemos perceber grandes  diferenças: no grupo definido como pretos, o analfabetismo chega a 30% e o grupo dos  pardos 29%, entre os brancos 12% e 8% entre os amarelos. 
  Quando a pesquisa fala em anos de estudo, a média dos brancos é de 6,6  anos, enquanto pretos e pardos estudam em média 4,6 anos. 
Quanto à expectativa de vida, observamos novamente uma enorme desigualdade: pretos e pardos apresentam níveis muito maiores que brancos.
Em termos de mortalidade infantil, que é um dado muito expressivo das condições de vida e a falta de saneamento básico, a população branca tem uma taxa de 37,3 mortes por mil nascidos vivos, enquanto entre pretos e pardos essa taxa é quase o dobro, 62,3 mortes por mil nascidos vivos. 
Com relação aos matrimônios – incluindo não só as uniões formais, como também as informais – aparecem variações importantes.  Novos números indicam como o matrimônio civil – uma das grandes inovações da República – um privilégio dos brancos. Por fim, apesar de apresentar um nível inferior ao observar outras misturas de povos, a maior parte dos casamentos no Brasil é pertencente a um mesmo grupo de cor. No país da mistura racial, o nível chega a 79%, mas a proporção varia muito de grupo para grupo.
Quanto aos salários e aos rendimentos, o salário hora médio dos brancos e amarelos é quase o dobro dos pretos e pardos.
Dessa forma, apesar de bem intencionada, a lei não dá conta do lado dissimulado da discriminação brasileira.  Destacando a mestiçagem, diminuiu a desigualdade no dia a dia, porém o problema é que o tema da raça carrega aqui outras questões. Como distinguir quem é negro e quem é branco no Brasil?


4.  RACISMO À BRASILEIRA?

Definir a cor da pele em um país com tantas misturas como o Brasil, não é tarefa fácil e isso se evidenciou numa pesquisa realizada pelo IBGE, onde os brasileiros atribuíram a si próprios mais de 130 cores, revelando que a opção parda oferecida pelo Censo não dá conta da complexidade de se identificar pela cor.
Quando um indivíduo de pele escura se declara branco ou queimado, vemos a dificuldade em se declarar negro, em assumir origens, ser branco se tornou uma aspiração social. E isso se dá pelo fato de vivermos numa sociedade onde ser branco significa ter mais oportunidades de ascensão social, numa sociedade injusta e que reforça o domínio de uns sobre outros.
Atualmente multiplicam-se a criação de órgãos que buscam promover a igualdade racial, com iniciativas como cotas para negros e pardos em instituições de ensino, visando fortalecer a ação afirmativa. No entanto, apresenta-se o fortalecimento das diferenças das “raças”, conceito desacreditado pela biologia, mas que ainda se faz presente em atitudes como fotografar vestibulandos negros, como forma de garantir a comprovação da “veracidade da cor”, fato ocorrido na Universidade de Brasília. Isso revela-nos a necessidade de refletir sobre conceitos construídos, que trazem efeitos desiguais de hierarquização e de mobilidade social.
As questões raciais no Brasil precisam ser discutidas, resolvê-las vai além de políticas públicas como cotas. Precisamos sair do “a favor ou contra” e avançar para reflexões mais amplas. O racismo no Brasil não é coisa do passado, ele ainda marca presença no cotidiano dos brasileiros.  Muitas vezes não nos damos conta de que o racismo está presente em maneiras de falar, como por exemplo, ao dizer que alguém casou bem, por ter se casado com alguém de pele branca. 
A “raça” expressa desigualdade, injustiça; faz com que o caráter do individuo  seja medido por suas características físicas e o que vemos são estratégias políticas que buscam amenizar situações, porém não as resolvem. 
Precisamos sair do estado de conformação e partir para um bom diálogo.

  
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observamos ao longo destas leituras e debates o quão arraigado é o racismo na vida das pessoas. Todos nós temos uma história para contar. Um pequeno detalhe ou um comentário basta, para percebermos o preconceito, não só sobre a cor - que é o nosso foco neste momento – mas também contra os obesos, os gays e as religiões. Por que tanto preconceito? Por que não podemos primeiro conhecer o outro, o diverso de nós, para depois sim, formar uma opinião? Permitir-se ao diferente, aceitar as diferenças.  Aceitar o outro independente da cor, credo, identidade de gênero é fundamental para a melhor convivência.
Somos todos iguais, apesar de muitos esforços terem sido feitos, e ainda o são, para justificar e naturalizar esse movimento camuflado do racismo e diferenças sociais gritantes. Cabe a nós começarmos a romper com esse discurso demagogo e partirmos para a prática, não podemos mais dividir as pessoas e medi-las por sua cor de pele.
Oportunidades iguais e se for preciso sim, adota-se as cotas, é justo, é pouco e ainda assim parece uma esmola. Chega de hipocrisia, assumir a verdade e começar a mudar essa opressão disfarçada, esta falsa relação amigável-necessária. Podemos todos ser amigos sim, nos relacionar sim,  aí  está  a beleza do povo brasileiro, então, vamos prestigiar  e enaltecer nossas diferenças, dentro da igualdade social.


REFERÊNCIAS

NOGUEIRA, Oracy. Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979.


SCHWARCZ, Lilia Moritz.  Racismo “à brasileira”.  In: ALMEIDA, Heloisa Buarque de; SZWAKO, José (Org.).  Diferenças, igualdade.  Coleção Sociedade em foco.  São Paulo: Berlendis e Vertecchia Editores, p. 70-115, 2009.




Publicado em:

São Paulo, 16 de julho de 2015.



[1] Trabalho apresentado à Disciplina Sociologia e Educação I do Departamento de Educação e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro / Instituto Multidisciplinar, como exigência para a aprovação na mesma. Professora: Drª. Rosana Monteiro. Nova Iguaçu/RJ – 2011.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Guerra Fria do século XXI : As manifestações de 15 de março de 2015 - Quando a direita vai às ruas no Brasil


A Guerra Fria do século XXI :
As manifestações de 15 de março de 2015
Quando a direita vai às ruas no Brasil

Por Daniel Bruno Vasconcelos[1]

A partir de uma análise global dos protestos, vale ressaltar que alguns países da América do Sul se mostraram com um passo à esquerda (que fique bem claro, apenas um passo) neste século XXI, dentre eles, os participantes do Mercosul: Argentina, Venezuela, Brasil, Uruguai e Paraguai (esse país merece uma observação importantíssima que faremos mais adiante).  
No ano de 2008 a maior economia mundial, EUA, mostrou que a livre circulação do mercado não funciona tão bem como os neoliberais pensavam, precisando de um ajuda financeira estatal para controlar e não afundar os grandes detentores do capital, em principal os bancos e especuladores do mercado. Neste século XXI, os EUA perdeu boa parte do seu mercado para a China, na qual, na última década veio crescendo economicamente a um nível superior as demais potências.
A aliança econômica entre China e Mercosul no século XXI trouxe muitos benefícios para a sociedade sul-americana, principalmente na área do mercado das tecnologias, foi um avanço muito representativo nesses territórios. Desde então, o mercado consumidor da América do Sul passou a direcionar boa parte do seu capital para Ásia, através dos acordos diplomáticos econômicos. O Mercosul, majoritariamente no século XXI se mostrou politicamente em um viés de políticas mais sociais de esquerda e com menos políticas neoliberais. Em relação anos de 1990, período auge do neoliberalismo na América do Sul controlado geopoliticamente pelos EUA.
Após o fim das ditaduras militares nos países da América Sul (que foi a mando dos EUA durante o século XX), os partidos que “redemocratizaram” em seguida todos esses países foram extremamente neoliberais, com políticas econômicas externas voltadas majoritariamente para os EUA. Como esses partidos chegaram ao poder? Pela manipulação dos veículos de comunicação de massa. No Brasil, isso ficou muito claro nas eleições de 1989 quando a Rede Globo manipulou o último debate entre Lula e Collor. Nesse momento da história fica claro o poder político que os grandes veículos de comunicação possuem diante a sociedade.
Em meio a tanta miséria e milhares de pessoas morrendo de fome até o final do século XX, o Brasil respondeu nas eleições de 2002, já não aguentava mais esse modelo neoliberal de políticas sociais e econômicas. Foi quando elegeu um ex-metalúrgico (Lula) e líder do movimento sindical para a Presidência da República. As políticas sociais do Governo Federal mudaram seu trajeto desde então, as minorias que nunca foram ouvidas, passaram a ter o mínimo de representação, houve conquistas trabalhistas (vide a lei das empregadas) e sociais das classes menos favorecidas historicamente (as cotas nas universidades, o bolsa família, dentre outras). Sabemos que ainda há muito que se fazer para os que sempre foram excluídos, e também na reforma da estrutura política e econômica do Brasil (que foi consolidado no século XX). Nessa estrutura, a classe trabalhadora sempre foi e continua sendo a grande prejudicada desse sistema, tanto no campo quanto na cidade.
  O mesmo processo aconteceu de forma semelhante nos nossos países vizinhos ao Brasil, na Argentina com os Kirchner, no Uruguai com o Tabaré e posteriormente com o Mujica, na Venezuela com o Chaves e recentemente com Maduro, no Paraguai com Lugo (destituído em um golpe de Estado). Esse processo mostra o quanto os países da América do Sul sofreram com a geopolítica dos EUA no século XX, desde o controle da economia e da política sul-americana através do viés ditatorial, e posteriormente através dos partidos neoliberais (na qual os representam nesse continente através da via “democrática” até hoje).
Como não há um clima político mundial para uma nova intervenção militar nos países sul-americanos, tanto do lado da direita, quanto do lado da esquerda (que ambos não querem perder os seus postos econômicos e políticos), os grandes detentores do capital dos EUA (os mesmo que financiam as campanhas dos partidos neoliberais) tentam através dos grandes veículos de comunicação manipular a grande massa populacional contra os partidos que hoje estão no poder (partidos populares de tendências de esquerda). Essa conjuntura nos mostra um verdadeiro golpe de Estado através da mídia, isso aconteceu na Argentina (puxada pelo Grupo Clarín), na Venezuela e agora no Brasil (puxada pelos grupos e partidos de direita, igrejas evangélicas, veículos de comunicação impresso, digital e televisivo). A Rede Globo, maior veículo de comunicação do Brasil, foi o principal agente manipulador das massas desse movimento populacional contra a Presidenta Dilma Rousseff, incitando em muitos o ódio.
O dia 15 de março de 2015, não foi escolhido por acaso para acontecer uma manifestação contra a Presidenta Dilma, nessa mesma data no ano de 1967 tomava posse da Presidência da República o Marechal Costa e Silva, no ano de 1974 tomava posse o General Ernesto Geisel, no ano de 1979 tomava posse o General Figueiredo, todos no período da Ditadura Militar no Brasil. Essa data mostra através da história um marco representativo de golpe contra o Estado Democrático.
Já era de se esperar da sociedade paulista uma grande manifestação contra o Governo Federal, o Estado de São Paulo tem o maior campo eleitoral do PSDB (principal partido de oposição ao PT), porém o que mais chamou à atenção nessa manifestação não foi à indignação contra toda a corrupção no país, uma das principais pautas da manifestação, e sim, o ódio criado nas pessoas contra a Presidenta Dilma e contra o PT. Em meio a tantos xingamentos à Presidenta, mostrando o ódio que foi criado no coração das pessoas, um grupo considerável gritava na Av. Paulista: “Dilma desgraçada, por sua causa eu não tenho mais empregada”. Percebe-se claramente que esse campo político virou uma briga de classes sociais, não é apenas uma luta para tirar o PT do poder e colocar um partido neoliberal (até porque o PT também tem políticas neoliberais), e sim, uma luta para que os ricos continuem tendo mais privilégios que os pobres, deixando assim, apenas as migalhas e o trabalho escravo para os excluídos desse sistema capitalista.
O ódio contra os nordestinos foi mostrado sem nenhum pudor nas vozes dos manifestantes, o pedido da volta da Ditadura Militar, os gritos de Fora Paulo Freire da educação, dentre outras atrocidades. Tudo isso deve ser muito considerado como a voz do povo, porque assim podemos saber que tipo de povo está nas ruas lutando pelos ideias, e contudo, podemos fazer uma análise do porquê desses pensamentos preconceituosos e fascistas. Será apenas uma luta de classes?  Onde o ódio da classe média/alta está a flor da pele por ter que ocupar os mesmos espaços que os pobres, vide isso nos aeroportos, universidades, restaurantes, dentre outros lugares. Pode ser que sim.
Muitas pessoas não sabiam nem o motivo de porquê estar nessa manifestação, o único discurso que prevalecia era “Fora Dilma! Fora PT! Chega de Corrupção!”. Ao refletir sobre isso, pensamos, será que as pessoas acreditam que a corrupção no Brasil chegou no século XXI e só existe no Governo do PT? Sabemos claramente pelos fatos históricos que não! A estrutura política criada antes mesmo do PT entrar no poder do Governo Federal, fez que o PT “dançasse conforme a música, beijando a mão do Capital antes de chama-lo para dançar”. O PT entrou no circuito capitalista abraçado com o Capital, mas não dançou da mesma forma que os outros, que ao invés do samba (carioca e paulista), preferiu o forró (de origem nordestina). Transformando o Nordeste, espacialmente e socioespacialmente em uma Macrorregião potencializadora, tanto na economia quanto na política. Isso também foi motivo da raiva dos paulistas e cariocas nas manifestações do dia 15 de março de 2015.
Temos que ficar de olhos bem abertos sobre todas as informações que nos chegam. Nestas manifestações chamadas pelos grandes veículos de comunicação, teve como grande participante dos atos a Polícia Militar. Na qual em São Paulo, ela representa um Governo fascista e neoliberal do PSDB. Essa mesma PM que tirava fotos com manifestantes na Av. Paulista, é a mesma PM que mata pobres e negros nas periferias das cidades. Não podemos confundir as coisas, existe sim, uma tentativa de golpe pelos partidos neoliberais, apoiado pelo aparato de segurança pública dos Estados. A informação que a mídia circula de que a PM está tirando fotos com os manifestantes não é porque a PM é boazinha e está do lado do povo, muito pelo contrário, ela estava ali representando o Capital e para legitimar as manifestações da classe média/alta que à defende. Exaltando o “poder popular” e elevando-o em uma contagem absurda o número de participantes dessas manifestações. Ou seja, uma verdadeira manipulação das informações.
 Voltando para a escala global, ao fazer uma análise desse sistema econômico e político vigente, percebe-se claramente que existe sim, a ideia de acabar e destituir os partidos que governam os países do Mercosul[2]. Essa ideia parte dos grandes detentores do Capital dos EUA e da EU (União Europeia). Eles estão buscando isso através da manipulação das massas pelos grandes veículos de comunicação. A razão disso (e não apenas isso) está na aliança política do Mercosul com os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em principal a China. Os detentores do Capital dos EUA não querem perder o mercado consumidor e de circulação econômica nos países sul-americanos. Por isso, a ideia de implantação da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) pelos EUA não acabou, pois ele necessita de um mercado consumidor e de exploração do trabalho para sair dessa crise mundial, e que fique claro, ele está buscando isso na América Latina, e consequentemente no Mercosul. 
O Paraguai foi o exemplo claro de golpe de Estado, no ano de 2012 o Presidente da República do Paraguai, Fernando Lugo, sofreu um impeachment que deu origem a um processo no parlamento que durou um pouco mais de 24 horas, a pedido do partido de direita representado pelo Partido Colorado. Esse impeachment foi considerado ilegal e ilegítimo pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, gerando uma crise diplomática do Paraguai com o Mercosul e na Unasul. Esse é o exemplo precedente que temos de golpe de Estado no continente sul-americano, impulsionado pelos interesses do Grande Capital.
Ao pensar em um contexto geopolítico mundial, colocamos aqui com ênfase que o Grande Capital é o usurpador dos direitos humanos e da economia Latino Americana. Ele está sendo representado hoje pelos grandes veículos de comunicação, a fins de manipular a grande massa semianalfabeta ou analfabetos funcionais, que os Estados formaram nas últimas décadas com a progressão continuada. Tudo isso para uma retomada do poder, controle da economia e dos direitos humanos, por isso, a população deve ficar muito atenta! Não é apenas a manipulação das informações que a grande mídia repercute em seu discurso, e sim, a omissão das informações que estão por trás de todo esse sistema político e econômico. Dessa forma, deve-se tomar muito cuidado e ter um pensamento muito crítico sobre o que repercute de informação nos grandes veículos de comunicação, pois eles representam interesses de uma pequena elite que tem muito capital e poder político.
A Guerra Fria do século XXI chega através do discurso dos grandes veículos de comunicação na América Latina e em outras partes do mundo, com o objetivo de manipulação das massas populacionais e, de levantar o ódio nas pessoas contra os representantes de esquerda. O intuito dessa organização midiática é garantir a produção e reprodução do capital para os agentes que as financiam, dando o poder e voz sobre as massas para implantar o discurso de defesa do patrão, do livre mercado, das privatizações, Estado mínimo, dentre outros fatores que o neoliberalismo prega na sua base teórica.
Deste modo, é preciso ter um pensamento muito crítico sobre as informações que nos chegam, em primeiro lugar é necessário pensar, quem está sendo beneficiado com determinada informação? Vide o caso dos escândalos de corrupção da Petrobrás, os mesmos agentes que denunciaram os escândalos de corrupção na empresa, foram os que mais compraram ações da empresa quando elas despencaram. Quem desdenha quer comprar! É necessário termos um Estado rígido e forte que lute pelos menos favorecidos no sistema capitalista, pois só assim teremos uma maior igualdade social nesse século XXI.
A aliança econômica do Mercosul com os países dos BRICS, fazem hoje os EUA perderem o mercado consumidor dos seus produtos, consequentemente perdendo capital. Na junção das políticas externas dos países do Mercosul, vem o câmbio desvalorizado das moedas locais, uma forma de controle das economias nacionais. A valorização das moedas locais permite maior importação de produtos, porém atingem diretamente as indústrias nacionais, por isso existe um controle do câmbio hoje para cada situação econômica. Cada país no Mercosul tem uma realidade econômica e estrutural (indústria e campo) diferente do outro, e com isso a realidade cambial de cada país é diferente uma da outra, dependendo de cada período.
Deixamos claro que a Guerra Fria do XXI que falamos neste texto diz respeito aos Grandes Agentes do Capital dos EUA, ao Mercosul e aos BRICS. O circuito de produção e reprodução do capital que ferem esses blocos econômicos e políticos é de uma representatividade muito grande na nossa realidade. Podendo mudar o contexto atual de uma hora para outra. Não podemos tapar o Sol com a peneira e sermos manipulados pelos grandes veículos de comunicação, pois eles representam hoje o Capital usurpador dos direitos trabalhistas e humanos, o discurso manipulado e a omissão das informações fazem parte do seu jogo. Por isso, é necessária uma reforma em todos os veículos de comunicação, onde haja a participação de todos os segmentos da sociedade e não apenas de um grupo elitista. O Equador é um exemplo mais claro que temos a se seguir para regulação dos veículos de comunicação, na qual existe uma participação tanto Estatal, quanto da sociedade civil organizada. 
Os sul-americanos precisam ficar de olhos bem atentos para não serem manipulados pelo discurso predominante da elite, porque fomos historicamente usurpados pelos Grandes Agentes do Capital dos EUA e não podemos deixar que o modelo neoliberal dos norte-americanos se apliquem de  fato aos nossos territórios novamente ( mesmo sabendo que parte dele já é impossível de se ver distante, pela atual conjuntura econômica, técnica, científica  e informacional).
Para concluir, deixamos claro que é necessário termos uma visão crítica sobre tudo que repercute nos grandes veículos de comunicação, na televisão, nos jornais, nas revistas, no rádio, na internet, dentre outros. Pois essas informações sempre representam algum grupo elitista que está financiando esses conteúdos, os principais são neoliberais norte-americanos e alguns países da EU, que usurpam a mão-de-obra dos trabalhadores com baixa escolaridade e extermina a população que vai contra seus princípios. Por isso temos que dar um NÃO para o neoliberalismo representado pela grande mídia, para ficarmos bem longe da ALCA e consequentemente da extrema pobreza.






São Paulo, 16 de março de 2015.








[1] Licenciado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista, Campus de Ourinhos. Mestre em Geografia pela Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Contato: danielvasconcelos@yahoo.com.br.

[2] Isso fica claro no depoimento do Senador de São Paulo e ex-candidato a vice Presidente pelo PSDB, Aluysio Nunes Ferreira, quando ele fala em um evento realizado pelo Instituto FHC no dia 09/março/2015, que quer sangrar a Presidenta Dilma nos próximos 4 anos. Incitando o ódio na população contra a Presidenta.